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foto by Lenon Cesar |
Mulher não anda só
por Luciana Romagnolli
Nascer em corpo identificado como “mulher” significa crescer à sombra de um ideal de feminilidade que prescreve uma série de normas de aparência, comportamento e interação social. Significa ser um corpo tratado não só como objeto do desejo alheio, mas um objeto imperfeito, que precisa ser constantemente modificado, modelado, esticado, pintado, aparado, apertado para ser considerado aceitável.
As formas de tortura socialmente legitimadas às quais o corpo feminino é submetido não só são perversamente naturalizadas, mas vão fixando uma identidade ao longo da vida. A tomada de consciência do seu caráter repressor exige tempo e esforço desmedido para desprender-se dela. “Cartografia do assédio”, da Karma Cia. de Teatro, com concepção de Pietra Garcia e do diretor Renato Turnes, mobiliza uma necessária pedagogia da desaprendizagem do que é ser mulher.
A coordenada cartográfica é o entrecruzamento do estético com o social, onde a teatro se abre a um contexto mais amplo e elabora respostas artísticas a ele,
acentuando a percepção da arte como nada além da vida – esta vivida cotidianamente, mas esteticamente organizada.
Manifesto
Tal organização sensível absorve estratégias próprias de mobilizações políticas
feministas. É interessante notar o movimento pendular: assim como as
manifestações sociais em espaço público apresentam um forte caráter estético,
expresso nas pinturas corporais, nas artes dos cartazes, nas coreografias dos
corpos e na poesia das palavras, o teatro engajado contemporâneo, por vezes,
tem se aproximado de uma estética da manifestação.
No início de “Cartografia do assédio”, Pietra recebe o público em uma sala
fechada. O primeiro espaço a cartografar é seu próprio corpo. Sobre ele, se
inscrevem linhas divisórias, que lembram os cortes de carne de vaca, e nomes
de mulheres que concederam breves relatos de assédio. A seleção desses
depoimentos preserva as contradições de falas que, ocasionalmente,
reproduzem a lógica machista.
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foto by Lenon Cesar |
Não à toa, esse escrever sobre a pele é uma estratégia frequente em diversas
ações do movimento feminista, desde as manifestações públicas a
intervenções como “Corpos poéticos”, da mineira Ana Luiza Gonçalves. O ato
chama a atenção para como as representações culturais ficam gravadas no
corpo. Note-se que o verbo “gravar” significa traçar, fixar, mas também oprimir
e molestar 1 . A memória das violências sofridas é física, retém musculaturas e
terminações nervosas, enverga ombros, abaixa cabeças.
A maneira própria de Pietra conduzir essa reescritura é marcada pelos
caminhos do olhar da atriz. Quando procura no vídeo registrado ao vivo um
espelho para se enxergar, vemos a dependência de uma imagem externa para
o reconhecimento de si – e o campo do audiovisual como produtor dessas
imagens na contemporaneidade. Ora perdido, ora cansado, ora determinado,
seu olhar expressa afetos comuns à experiência reincidente do assédio e
interpela espectador a espectador silenciosamente.
A esse prólogo, que prepara um território discursivo comum, segue-se o cortejo
pelo centro da cidade, seguindo os passos da atriz. A seminudez do espaço
privado é substituída por uma espécie de uniforme para o enfrentamento da
batalha que é uma mulher sair à rua. Todas as calçadas são ocupadas por
homens, lembra-nos Pietra, e é preciso desviar de um por um para chegar ao
destino.
A atriz propõe ações e lugares distintos para homens e mulheres, delimitando a
diferença das perspectivas. Coloca o público masculino em situações
constrangedoras, e o feminino, na posição de expressar os assédios sofridos e
responder a eles. Inversão com a qual corrige a percepção da mulher como
parte constrangida em uma cena de assédio.
Ao longo do trajeto, o cortejo vai se fazendo passeata e o público se torna o
corpo coletivo de uma manifestação que atravessa ruas e praças. A dimensão
e a potência dessa ação na paisagem urbana encontram seu limite em certa
timidez na relação com o entorno. Mais cartolinas, mais cartazes, mais atenção
direcionada às pessoas ao redor poderiam ampliar e intensificar os efeitos da
intervenção na cidade. Quiçá, assim, o teatro seja capaz de atingir uma
população alienada do campo artístico.
Por fim, retornamos com Pietra a um espaço privado onde ela retoma o próprio
corpo como coordenada da cartografia do assédio. Entre fotos de infância e
uma construção da feminilidade padrão, aparece a operação de
enquadramento do corpo e esmagamento da carne para atender ao ideal de
mulher.
A soma de vivências pessoais finalmente desemboca na enunciação de um
problema de segurança social. A atriz abandona o público ao desconforto do
enfrentamento com a violência e sua demanda por uma contínua
desaprendizagem que há de ser, necessariamente, individual e coletiva.
***A jornalista Luciana Romagnolli é crítica e editora do site Horizonte da Cena
1 Ver Houaiss. Disponível em: https://houaiss.uol.com.br/pub/apps/www/v3-3/html/index.php#38
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