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foto by Carolina Copello |
por Luciana Romagnolli
Paisagem 1. Itajaí, fim de tarde de sexta-feira, calçadão da avenida Hercílio
Luz. Um homem está parado, ele veste terno e os cabelos presos, a postura
ereta completa a imagem civilizada que poderia pertencer a um executivo ou
outro profissional do capitalismo. Exceto pelos pés, descalços. Sob eles,
quadrados de grama enfileiram-se como tapete. O corpo civilizado percorre o
caminho verde, agacha-se, deposita o bloco de grama imediatamente à frente,
levanta-se, percorre o caminho de volta novamente em busca do último
pedaço.
Leandro Maman repete essa ação sucessivamente, deixando atrás de si um
rastro de terra sobre o concreto enquanto esverdeia o caminho à sua frente.
Seu pisar recusa o chão duro com o qual se recobriram as cidades, recusa o
tempo apressado dos deslocamentos urbanos, recusa o utilitarismo da vida. À
sombra do mito de Sísifo, sua inútil caminhada é uma desobediência contra a
(des)razão do progresso.
Ao passo que o homem evolui pela calçada movimentada respeitando seu
tempo e seu propósito, a performance “Por onde andei” segue a contrapelo do
asfalto e de sua lógica de eficiência e produtividade. Há uma calma na
execução dessa partitura, uma fidelidade aos ritos, que confere à imagem em
movimento uma qualidade meditativa. Espaço mental para o pensamento
perder-se e depositar leituras subjetivas, que variem de acordo com os outros
elementos da paisagem em trânsito. Um rebuliço à porta de uma loja, cidadãos
apressados, outros distraídos, uma bicicleta que quase tomba ante a parada de
duas mulheres para observar a estranheza da cena extracotidiana.
O que se passa no tato dos pés quando abandonam a fria aspereza do asfalto
para resgatar a cumplicidade com a natureza? Outra ecologia se funda. Outra
relação do humano com o meio – ambiente, da rua, de vida.
Paisagem 2. Uma das duas jovens quase atropeladas pela bicicleta se insere
na performance para ajudar o homem. Sem dúvida, o esforço físico do trabalho
de recolher e estender o tapete de grama é pesado. Ela retira os sapatos e
adentra o espaço de percurso para realizá-lo com ele. Cumpre semelhante
partitura de ações, em tempo e postura menos rígidos.
Ao passo que a dupla movimentação desfaz o ritmo e enfrenta
atravancamentos entre os corpos, a paisagem se torna a de uma relação
temporária, que reenquadra a ação e altera seu motor. É preciso agora negociar o espaço, ceder o domínio, dividir o pouco chão, esperar o outro
corpo para que se mova a pequena célula social, ainda sob os ritos e os
propósitos dele, ainda desobediente ao concreto.
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foto by Carolina Copello |
Paisagem 3. Agora já são quatro ou cinco os corpos que se revezam para pegar um dos pedaços de verde e refazer o caminho sempre um pouco mais adiante. Eles não tiram os sapatos, eles não pisam a grama. Enquanto Leandro atém-se ao princípio de não tocar os pés no concreto, eles não sentem o contato da sola com a terra e a vegetação. Outra norma silenciosa os move. Cada vez mais rápido. Cada vez mais longe.
Logo, espaçam os tapetes de grama entre si, e Leandro precisa pular. Não
basta. Espaçam mais, até onde o corpo não alcança, e é preciso carregá-lo nos
ombros para que se cumpra sua premissa. O tempo e a distância se tornam
alheios à proporção humana. Cada vez mais longe, cada vez mais rápido, o
caminho fica para trás, já sem rastro, submetido à lógica do progresso e da
produtividade que, antes de tudo, justificou a pavimentação do que já foi mata
ou rio.
Um percurso que seria cumprido em quatro ou cinco horas se reduz a uma.
Eficientemente.
Paisagem 4. No gramado ao fim da avenida, os corpos já em posição de
descanso ensaiam uma conversa. Entre os que se somaram à performance, há
o sentimento de satisfação por terem exercido a solidariedade. Por
interromperem, também, o curso utilitário de suas rotinas para uns momentos
de arte. Por terem tornado menos pesado o esforço do performer.
Não há a simbolização de um homem de pés descalços que carrega a própria
grama em desobediência ao chão pavimentado. Perdeu-se onde no caminho?
Há também o homem haitiano deslocado do universo linguístico comum, que
parece acreditar ter realizado um trabalho e esperar seu pagamento. Não há
tradução possível. O performer pede que alguém o pague.
Não há comunicação entre esses corpos. Não se comunica o princípio da ação
que passariam a realizar juntos.
Então a lógica do progresso se impõe.
Ainda. Quanto de “realidade” uma obra artística aguenta?
No artigo “Y después de la performance que?”, o pesquisador espanhol Oscar
Cornago faz pensar sobre essa questão formulando as seguintes perguntas:
“Como conciliar a coerência interna da obra enquanto um sistema próprio com
a necessidade de fazê-la frente a um público? Como estabelecer a relação
entre autonomia e dependência?” (2016, p. 28).
“Por onde andei” deriva de uma pesquisa de ações urbanas da Eranos Círculo
de Arte com foco na construção de uma imagem. Esperar que a imagem dos
primeiros passos mantenha-se ao longo da caminhada seria incoerente com os
princípios da performance e da intervenção na rua. Deixar que o público
capture os seus sentidos e produza uma imagem invertida é incoerente com o
projeto artístico em curso.
A cidade atravessa performance tanto quanto a performance atravessa a
cidade. Mas a cidade transforma a performance mais do que a performance
transforma a cidade.
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